Gigantes do Jazz, Studs Terkel

Combo oito estórias do jazz, Rudi Blesh

O interesse pelas biografias de Jazz é assinalado pela distribuição em Portugal, ainda antes de 1974, de dois outros livros de edição brasileira, de dois autores norte-americanos, Gigantes do Jazz de Studs Terkel (Lidador, 1965) e Combo oito estórias do jazz de Rudi Blesh (Editora Cultrix, 1971 – sem data da edição brasileira, sendo de admitir que a edição e distribuição nacional tenha acontecido já do meio dos anos 70).

Os dois livros são bastante curiosos. Gigantes do Jazz faz a biografia de doze músicos, de forma romanceada, utilizando histórias contadas ora pelos próprios ora por outros, ora ainda retirando informação dispersa, entre a qual material de arquivo da revista Down Beat. Os músicos biografados são Joe «King» Oliver, Louis Armstrong, Bessie Smith, Bix Beiderbeck, Fats Waller, Duke Ellington, Benny Goodman, Count Basie, Billie Holiday, Woody Herman, Stan Kenton e Dizzy Gillespie; e o livro completa-se com um último capítulo dedicado «O jazz é obra de muitos», dedicado aos inúmeros anónimos que fizeram a história do Jazz, e ainda uma discografia dos doze músicos em foco.

Surpreendentemente menos técnico que qualquer dos livros dos autores europeus antes referidos, o enfoque de Terkel vai claramente para a vida dos músicos, evidenciando-lhes a generosidade das personalidades, bastante de acordo com o humanismo que pautou a sua vida, e que o levou a ser perseguido pelo senador McCarthy de má memória.

Homem de cultura, apaixonado pelo Jazz, Studs Terkel estou direito, mas dedicou toda a sua vida à arte, à cultura e ao espectáculo, sendo reconhecido pela sua defesa das causas sociais, que o levou até, em 2006, já com 94 anos de idade, e com um coração transplantado (!), a encabeçar a luta contra o fornecimento pela AT&T ao governo federal das gravações das comunicações telefónicas dos cidadãos americanos sem autorização legal.   

A sua actividade espalha-se pela escrita, pela rádio e pela televisão, ao longo de mais de sessenta anos, como argumentista, locutor, apresentador, autor, sendo de destacar, para além deste seu livro dedicado ao Jazz, de 1957,  Hard Times: An Oral History of the Great Depression, de 1970,  American Dreams: Lost and Found, de 1983, ou Race: What Blacks and Whites Think and Feel About the American Obsession, de 1992.

Studs Terkel  faleceu em 2008 com 96 anos de idade.

      

Combo oito estórias do jazz de Rudi Blesh é, como o anterior, uma reunião de biografias romanceadas, e como essoutro também, pouco técnico, mergulhando nas histórias que oferecem ao leitor uma visão mais humana e próxima do músico, contando histórias, utilizando com frequência o discurso directo. O significado de combo é revelado logo na introdução do livro: «uma combinação de instrumentos musicais, reunidos para tocar uma música americana, o jazz», e mais à frente «O “combo”… constitui uma reunião de quaisquer instrumentos capazes de produzir música – tom, ritmo, ou ambos». Em poucas palavras, Jazz: música americana e colectiva, sendo que o livro conta a história de uma mão cheia de individualidades. E as individualidades são «Little» Louis Armstrong, «Creole» Sidney Bechet, «Big T» Jack Teagarden, «Prez» Lester Young, «Lady Day» Billie Holiday, Gene Kupra, Charles Christian e o pianist de ragtime Eubie Blake. O livro remata com um pequeno glossário de Jazz.    

Mais velho que Terkel 13 anos, Eubie Blake era também claramente um humanista e um apaixonado do Jazz, com um grande interesse pelo ragtime, e pelo Jazz dos primórdios, como denota a introdução de Eubie Blake, normalmente afastado das biografias. Mas noutros livros, Shining Trumpets A History Of Jazz ou They All Played Ragtime, a sua predilecção pelo Jazz antigo torna-se evidente. No Jazz, Blesh evidenciou-se também como radialista, como crítico e ainda editor discográfico, sendo dele uma importante pesquisa sobre o trabalho de Jelly Roll Morton, James P. Johnson e Eubie Blake.

Faceta não menos notável na personalidade de Rudi Blesh é a sua paixão pela arte, sendo conhecido como coleccionador e também crítico de arte, sendo conhecidas as suas relações com Jean Dubuffet, Marcel Duchamps, Sonia Delaunay, Man Ray, De Kooning ou Jackson Pollock.

Ainda, da sua bibliografia consta uma biografia autorizada de Buster Keaton, de 1966.

 

Enfim, uma amostra de cinco livros é obviamente reduzida para autorizar conclusões, mas não pode deixar de se observar a dissemelhança das preocupações dos críticos: os europeus procuraram sempre historiar o Jazz e defini-lo, enquanto os americanos contam a história do Jazz a partir das biografias das personalidades que o fizeram.